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Hora de Brasil

From Às voltas pela Argentina in Iguacu National Park, Brazil on Nov 28 '06

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Mais tarde ou mais cedo, todos vamos ou queremos ir lá. "Lá" significa o Brasil e a minha altura foi agora em que dei por mim à distância de um rio das terras de Vera Cruz.

Acantonado em Puerto Iguazu, na Argentina, com a única finalidade de visitar as cataratas, decidi ir provar o mesmo prato do outro lado da fronteira. Para lhe dar mais sabor acrescentei uma ida à Barragem de Itapu (a maior do mundo).

De manha, acabando o pequeno-almoço, vou até à estaçao de camionagem. Chegado lá, deparo com uma camioneta da companhia Itapu, mais pequena e aparentando estar para sair. Troco o peso extra de custo pela rapidez da partida e entro. Pergunto ao motorista se vai para Foz do Iguaçu. Responde-me "yes"... Os nervos dao alerta: contava que o motorista fosse brasileiro e, se assim fosse, a coisa era estranha. Confirmo o preço da viagem, sempre em Português, e obtenho um "trê peso" (pronúncia argentina). Pago e agradece-me com um "obrigado". A esta altura, começo a ficar com um misto de irritaçao e incredulidade.

A viagem começa e vao entrando pessoas. Alguns brasileiros embarcam. O motorista vai falando um misto de Português e Espanhol. A nacionalidade da criatura continua indefinida.

Já em Foz do Iguçu, pergunta-me para onde vou. Respondo-lhe que para a barragem. Diz que me indica onde sair. Entretanto, vi falando em Português com uma moça brasileira. Mais um pouco e começa a dar-me indicaçoes sobre onde ficar. Pergunta-me se falo Espanhol, corrige para Castelhano e, perante a minha negativa, diz que fala pouco Português. A coisa, decididamente, Ã© esquisita.

Chego ao sítio onde devo sair e pergunto a uma mulher na paragem onde há um banco. Um primeiro olhar de "de onde Ã© que este vem?" e segue-se a informaçao pretendida, com a colaboraçao de um homem que igualmente esperava um autocarro.

No supermercado onde existia uma área com multibancos, peço a um homem para me dar uma ideia de despesa de um dia por ali. Responde-me que cerca de 80 reais (1 euro=2,87 reais). Levanto 50.

De volta à paragem mando parar o autocarro que o motorista me tinha indicado e confirmo o destino com o motorista. Peç-lhe um bilhete e ele aponta-me um homem seco, de ar entre o sério e o gasto, sentado numa cadeira de cobrador, com uma cancela à frente. Curiosamente, antes da cancela já há lugares...

O indivíduo faz cara de poucos amigos ao receber uma nota de 10 para pagar 1,90. Nao recebo bilhete. Ninguém recebe. Simplesmente, pagamos, passamos a cancela e sentamo-nos.

O autocarro segue caminho por uma cidade feia, tipicamente sul-americana, com casas de R/C e 1o andar, ao estilo "armazém", com gente bastante diferente da populaçao argentina (mesmo aqui em Puerto Iguazu).

Ao fim de algum tempo, peço ao cobrador para me indicar a minha paragem. Faz-me "ok" com os dedos.

Chego à paragem da barragem e entro na recepçao. Vai começar um filme. A assistência Ã© quase toda argentina, a informaçao é trilingue (Português, Castelhano e Inglês - onde é que eu já vi isto?). O filme é falado em Português e legendado em Inglês. Um bruá de indignaçao percorre o público. No fim do desfilar de maravilhas sobre o projecto, uma rapariga anuncia nas três línguas que o transporte para a barragem é às 10:30. Sao 9:30 no meu relógio. Parece-me demasiado tempo mas penso que podem estar a querer juntar gente. Daí a pouco começará outra sessao. O publico desaparece (eram excursoes)  e eu fico por ali a fazer tempo. Ao fim de quase uma hora, a dúvida ferve-me na cabeça e dirijo-me Ã  recepçao. Pergunto as horas à giraça de serviço. Mais uma vez, tinha sido enganado por uma mudança de hora. Tinha perdido a camioneta e só havia outra a meio da tarde.

Sinto-me irritado comigo mesmo e com a terceira mudança de hora em três dias. Vou apanhar o autocarro de volta à cidade. Dois rapazes informam-me sobre qual apanhar e acompanho um deles na viagem. Troco algumas banalidades com ele e, ao fim de meia dúzia de frases, pergunta-me de onde sou... "Ah, é Português..." recebo como comentário Ã  minha resposta. Comentários para quê?

Desço no Terminal Urbano que mais nao é do que três ou quatro placas com estrada de permeio e redes nas pontas de cada placa para que ninguém possa entrar (!). Estranho a situaçao ao verificar que existe uma cancela e que há pessoas a pagar para entrar numa coisa que, afinal, é aberta. Pergunto ao homem da bilheteira que se vira surpreendido quando lhe pergunto pelas "cascatas" (enganei-me pela única vez). Confirma que sao as "cascatas" e diz-me que se eu ja estou dentro nao tenho de pagar e so tenho é de embarcar na camioneta. Assim faço. Fico um bocado nervoso com a expectativa de ser apanhado em falta mas logo me lembro de que ali nao há bilhetes!... É, no mínimo, um sistema estranho.

A viagem para o Parque Nacional dura 40 minutos, cruzando a cidade e voltando a passar perto da fronteira. Pelo caminho vou reparando nos cartazes e como o que neles está escrito pouco difere do que se lê em Portugal. Até no facto de haver informaçao em Espanhol. E a isto me referirei mais adiante.

Chegado ao parque, é altura de comprar bilhete. Para o fazer, é necessário um documento de identificaçao. Ponho o passaporte à mao mas nao é preciso. Apenas me perguntam de onde sou. Só depois me lembrei que podia ter respondido que era Sueco.

20 reais depois, estou num autocarro de dois andares, aberto em cima (dos lados) e a ouvir a fatal informaçao trilingue. A estrada segue rodeada de floresta e vai-se passando por vários pontos onde se pode sair para aceder a atracçoes pagas. Sigo o conselho da Lonely Planet e saio na última paragem. Daí parte um caminho pela encosta, sempre no meiode árvores.

Logo na primeira curva, um lagarto atravessa-se no meu caminho. Tem o tamanho de um braço, é castanho às riscas brancas e apressa-se a cruzar a passadeira enquanto a minha máquina fotográfica me faz o favor de nao se ligar para que eu possa captar o momento. Mais uma dose de nervos, rapidamente desaparecida na curva seguinte quando se começa a ouvir o som das cataratas e uma imagem das mesmas aparece por entre a folhagem. Apresso o passo para chegar à primeira vista desafogada e, ao atingir o primeiro miradouro, o espanto é inevitável. À minha frente, um largo rio atira-se em enormes línguas brancas para o fundo de um precipício. É a maravilha!

Continuo o caminho, de miradouro em miradouro, sempre acompanhado por borboletas que nao temem as pessoas (houve uma que se enamorou de mim mas a longa relaçao acabou quando reparei que ela estava a cagar qualquer coisa na minha mao...). Consigo avistar um roedor mas ele foge para a vegetaçao. O espanto continua enquanto cada miradouro me proporciona uma nova vista e, ao mesmo tempo, me dá um quadro mais largo do cenário. Há grandes pássaros brancos (abutres?) a voar, há pássaros pequenos que parecem sair do meio da água que cai e há turistas (animal sempre muito abundante), quase todos argentinos.

Perto do final, uma passadeira leva-nos por cima de um planalto que recebe a água de uma das cascatas, para, de seguida, criar uma nova. Fico todo molhado, o que é uma bençao nos 41 graus brasileiros. Lá em baixo, na Garganta do Diabo, um arco-íris parece querer dar um ar doce ao caos da água.

Apanho um elevador para o último e mais alto mirador. Sinceramente, a esta altura, a beleza já causou calo. É tempo de comer qualquer coisa. Fico-me por um buffet que me custou a pesada quantia de 57 reais (mais de EUR 20).

A comida nao era nada de especial e os pratos que me foram indicados como sendo brasileiros nao tinham qualquer gosto de destaque. Devia ter ido à feijoada, talvez, mas... essa há em Lisboa.

À saída, tiro mais fotos, desta vez junto ao "lago" no topo das cascatas, onde nada nos anúncia o caos pouco mais Ã  frente.

Retomo o trilho, em sentido inverso, e consigo filmar calmamente pequenos lagartos que se aquecem ao sol. Também consigo avistar (e filmar) dois dos grandes. Os animais, vistos no seu ambiente, decididamente, nao causam repulsa.

Voltado à entrada do parque, é altura de procurar umas recordaçoes. Parecem caras e o interesse desaparece-me. Aliás, nao parece haver muita clientela. Envio um postal (a empregada confirmou se era um envio internacional, após eu lhe ter dito que era para Portugal...) e apanho o autocarro de novo para Foz do Iguaçu.

Na cidade, "arrisco" um passeio pela avenida e vou apanhar o autocarro para a Argentina bem mais à frente. Há muitos anúncios de restaurantes em conta (picanha a 12 reais, para duas pessoas) e pequenos estabelecimentos de libaneses, com os habituais rolos de carne no espeto.

Nao tirei nenhuma foto da cidade. Confesso que a fama que o Brasil tem mo impediu de fazer. Mas também sou obrigado a dizer que, apesar do ar "descontraído" das pessoas, nao me senti propriamente inseguro.

Na camioneta de volta para a Argentina (o cansaço e algum desconforto boicotou uma possível ida a Ciudad del Este, no Paraguai), renovou-se a confusao linguística onde, à semelhança do que acontece na Península Ibérica, sao os hispânicos a levar a melhor. Quais serao os argumentos para que tal aconteça por aqui? Sinceramente, nao os consigo imaginar.

A viagem de camioneta custa 3 pesos a partir da Argentina e 3 reais a partir do Brasil. Se tivermos em conta que 1 euro vale 3,75 pesos e 2,70 reais, podemos ter uma ideia da disparidade de preços. Se pensarmos que as moedas sao trocadas como se fossem de igual valor, podemos ver o quanto lucra a companhia de viaçao com estas "baldrocas".

Na fronteira, após mostrar o passaporte, ao reentrar na camioneta, chamam-me. Querem ver o meu saco e saber se comprei alguma coisa. Isto é zona de compras entre países e as autoridades querem minimizar as pechinchas. Curiosamente, o objecto que parece ter gerado mais curiosidade ao funcionário da alfândega foi o meu guia Lonely Planet da Argentina... :)

De volta à Argentina senti uma estranha sensaçao de regresso a casa e resolvi brindar com uma Heineken de litro numa esplanada coberta. A cerveja foi-me servida envoldida por um cilindro de esferovite que a conservou gelada apesar dos 40 graus que estavam.

Na pousada, fui ler para a beira da piscina. Acabado o bonito "Domingo à tarde", de Fernando Namora, lido na companhia próxima de um coelho branco que mordiscava umas ervas, foi tempo de mergulhar na água morna da piscina. Um excelente fim para um dia muito cansativo.

Amanha há mais...


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